Continuidad de los parques
Agosto, 2009
Había empezado a leer la novela unos días antes. La abandonó por negocios urgentes, volvió a abrirla cuando regresaba en tren a la finca; se dejaba interesar lentamente por la trama, por el dibujo de los personajes. Esa tarde, después de escribir una carta a su apoderado y discutir con el mayordomo una cuestión de aparcerías volvió al libro en la tranquilidad del estudio que miraba hacia el parque de los robles. Arrellanado en su sillón favorito de espaldas a la puerta que lo hubiera molestado como una irritante posibilidad de intrusiones, dejó que su mano izquierda acariciara una y otra vez el terciopelo verde y se puso a leer los últimos capítulos. Su memoria retenía sin esfuerzo los nombres y las imágenes de los protagonistas; la ilusión novelesca lo ganó casi en seguida. Gozaba del placer casi perverso de irse desgajando línea a línea de lo que lo rodeaba, y sentir a la vez que su cabeza descansaba cómodamente en el terciopelo del alto respaldo, que los cigarrillos seguían al alcance de la mano, que más allá de los ventanales danzaba el aire del atardecer bajo los robles. Palabra a palabra, absorbido por la sórdida disyuntiva de los héroes, dejándose ir hacia las imágenes que se concertaban y adquirían color y movimiento, fue testigo del último encuentro en la cabaña del monte. Primero entraba la mujer, recelosa; ahora llegaba el amante, lastimada la cara por el chicotazo de una rama. Admirablemente restallaba ella la sangre con sus besos, pero él rechazaba las caricias, no había venido para repetir las ceremonias de una pasión secreta, protegida por un mundo de hojas secas y senderos furtivos. El puñal se entibiaba contra su pecho, y debajo latía la libertad agazapada. Un diálogo anhelante corría por las páginas como un arroyo de serpientes, y se sentía que todo estaba decidido desde siempre. Hasta esas caricias que enredaban el cuerpo del amante como queriendo retenerlo y disuadirlo, dibujaban abominablemente la figura de otro cuerpo que era necesario destruir. Nada había sido olvidado: coartadas, azares, posibles errores. A partir de esa hora cada instante tenía su empleo minuciosamente atribuido. El doble repaso despiadado se interrumpía apenas para que una mano acariciara una mejilla. Empezaba a anochecer.
Sin mirarse ya, atados rígidamente a la tarea que los esperaba, se separaron en la puerta de la cabaña. Ella debía seguir por la senda que iba al norte. Desde la senda opuesta él se volvió un instante para verla correr con el pelo suelto. Corrió a su vez, parapetándose en los árboles y los setos, hasta distinguir en la bruma malva del crepúsculo la alameda que llevaba a la casa. Los perros no debían ladrar, y no ladraron. El mayordomo no estaría a esa hora, y no estaba. Subió los tres peldaños del porche y entró. Desde la sangre galopando en sus oídos le llegaban las palabras de la mujer: primero una sala azul, después una galería, una escalera alfombrada. En lo alto, dos puertas. Nadie en la primera habitación, nadie en la segunda. La puerta del salón, y entonces el puñal en la mano. la luz de los ventanales, el alto respaldo de un sillón de terciopelo verde, la cabeza del hombre en el sillón leyendo una novela.
Julio Cortázar
La voyage par Saramago
Junho, 2009

A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.
Assim é. Assim seja.
Le Scaphandre et le Papillon
Março, 2009
Assim que acordamos abrimos nossos olhos, mesmo sem nos movimentarmos ou falarmos, olhamos em várias direções, refletimos, pensamos, raciocinamos, nos colocamos como protagonistas de mais um dia de nossas vidas. Em silêncio repetimos ordens a nós mesmos sobre o que faremos durante o dia, a tarde e a noite, até mesmo repensamos o plano para o mês e os futuros projetos anuais. Neste pequeno exercício matinal sobre nossa existência receamos sobre nossas frustrações, nossos problemas, nossos amores passados, presentes ou futuros e de nossa saudade; a partir destas reflexões montamos a trilha sonora de nossas vidas entre sonhos e pesadelos.
Nem todos nós nos atamos ao singelo, a simplicidade da vida ou ao quanto somos felizes diariamente com os amigos que temos, com os problemas que temos e não temos ou com a maneira peculiar com que vivemos esta vida. Para muitos o peso de nossa vida muitas vezes e insuportável.
Não posso falar pelos outros, sou apenas parte do todo, mas assistindo ao filme O Escafandro e a Borboleta, baseado no livro de mesmo nome, percebo o quanto o peso da minha vida é comparável ao de uma pluma em contrapartida ao do protagonista do filme. Reflito no quanto problematizo meu corpo, minha realidade e meu futuro em cima de acontecimentos levianos e singelos, nada comparável ao peso e a dor de Jean-Dominique Bauby.
Aprisionado em seu próprio corpo, como numa espécie de Escafandro, Jean-Do em seu livro tentou representar o mundo pelo qual vivia em silêncio, para isso teve que aprender a se comunicar pelo piscar das pálpebras de um olho, única maneira que lhe restou de se comunicar com o mundo, após ter sofrido um derrame cerebral avassalador. Desta maneira conseguiu relatar o peso de seu escafandro para o mundo exterior, comentar seu drama e descrever seu peculiar mundo: “Através da cortina em fiapos, um tênue brilho anuncia o raiar do dia; Meus calcanhares doem, minha cabeça pesa uma tonelada; Todo o meu corpo está encerrado em uma espécie de escafandro. Minha tarefa agora e escrever as inertes anotações de viagem de um naufrago nas praias da solidão”.
A partir do comovente relato do livro O Escafandro e a Borboleta, o diretor Julian Schnabel se propôs a realizar uma obra prima. Sob o ponto de vista do próprio Jean-Do a obra inspira vitalidade e sofrimento, angústia e prazer, beleza e tristeza a quem o assiste. O filme consegue enxergar e mostrar o mundo de Jean-Do sem ser piegas, adota em sua narrativa lirismo e abstração em sua imaginação.
“Além do meu olho duas coisas ainda não estavam paralisadas: a minha imaginação e a minha memória. Eram as duas únicas maneiras de escapar de meu escafandro. Eu podia imaginar qualquer coisa, qualquer um e qualquer lugar. Flutuar nas ondas da Martinica, estar com mulher que amo… Posso imaginar o que quiser; Dar asas as minhas fantasias de menino, minhas ambições de adulto…”
Sem sombra de dúvidas o melhor filme lançado em 2008 no Brasil, somente o assisti neste início de ano, fico feliz de tê-lo visto, pois agora passo a olhar a vida de uma outra perspectiva, por uma nova peculiaridade, sem discursos motivadores prontos e clichês ou de autopiedade, mas com mais percepção aos pequenos detalhes da vida, as mínimas escolhas as quais o acaso me avalia.
Esta bela passagem resume basicamente a essência do que quero dizer: “Hoje, sinto que minha vida e uma série de frustrações; Mulheres que não fui capaz de amar; Oportunidades que eu não soube avaliar; Momentos de felicidade que deixei escapar; Uma corrida cujo resultado… eu conhecia de antemão, mas falhei em escolher o vencedor; Tenho sido cego e surdo, ou o duro golpe me faz descobrir minha verdadeira natureza?”
Ótima dica para a vida.
A metáfora da viagem
Novembro, 2008
A história dos povos está atravessada pela viagem, como realidade ou metáfora. Todas as formas de sociedade, compreendendo tribos e clãs, nações e nacionalidades, colônias e impérios, trabalham e retrabalham a viagem, seja como modo de descobrir o “outro”, seja como modo de descobrir o “eu”. É como se a viagem, o viajante e a sua narrativa revelassem todo o tempo o que se sabe e o que não se sabe, o conhecido e o desconhecido, o próximo e o remoto, o real e o virtual. A viagem pode ser breve ou demorada, instântanea ou de longa duração, delimitada ou interminável, passada, presente ou futura. Também pode ser peregrina, mercantil ou conquistadora, tanto quanto turística, missionária ou aventurosa. Pode ser filosófica, artística ou científica. Em geral, a viagem compreende várias significações e conotações, simultâneas, complementares ou mesmo contraditórias. São muitas as formas de viagens reais ou imaginárias, demarcando momentos ou épocas mais ou menos notáveis da vida de indivíduos, famílias, grupos, coletividades, povos, tribos, clãs, nações, nacionalidades, culturas e civilizações. São muitos os que buscam o desconhecido, a experiência insuspeitada, a surpresa da novidade, a tensão escondida nas outras formas de ser, sentir, agir, realizar, lutar, pensar ou imaginar.
Toda viagem se destina a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza como universaliza. Projeta no espaço e no tempo um eu nômade, reconhecendo as diversidades e tecendo as continuidades. Nessa travessia, pode reafirmar-se a identidade e a intolerância, simultaneamente à pluralidade e à tolerância. No mesmo curso da travessia, ao mesmo tempo que se recriam identidades, proliferam diversidades. Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades.
Sempre há viajantes, caminhantes, viandantes, negociantes, traficantes, conquistadores, descobridores, turistas, missionários, preregrinos, pesquisadores ou fugitivos atravessando fronteiras, buscando o desconhecido, desvendando o exótico, inventando o outro, recriando o eu. São inúmeros os viajantes emblemáticos, demarcando momentos da história e da mitologia, em geral povoando a imaginação das gentes: Gilgamesh, Alexandre o Grande, Aníbal, Marco Polo, os cruzados, os navegantes dos grandes descobrimentos nas lonjuras do mar-oceano, Colombo, Vespúcio, Fernão de Magalhães, Camões, Próspero, Robindon Crusoe, Napoleão Bonaparte e muitos outros. Em cada localidade, cidade, comunidade ou sociedade o imaginário está povoadode viagens presentes, pretéritas e futuras, envolvendo viajantes, crônicas, relatos, narrativas, documentos, comprovantes, coisas, gentes, signos. Mesmo os que permanecem, que jamais saem do seu lugar, viajam imaginariamente ouvindo histórias, lendo narrativas, vendo coisas, gentes e signos do outro mundo.
Texto extraido do livro Enigmas da modernidade-Mundo de Octavio Ianni
“Os Três Mal-Amados” com a palavra Joaquim
Outubro, 2008
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia “Os Três Mal-Amados”, constante do livro “João Cabral de Melo Neto – Obras Completas”
Dedico este post para você Gabriela que me completa todo dia.
Nós que aqui estamos, por vós esperamos.
Agosto, 2008
Não me lembro quando comecei a ter esperança na humanidade. Talvez esta sensação tivesse sido imposta deste quando nasci, quiçá influenciada pela religião, pela esperança ou pelo reflexo das boas pessoas que se encontraram pelo meu caminho. Entretanto escrevo tentando compartilhar o momento quando perdi este total sentimento.
O que colaborou para isto foi ter assistido ao filme “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” do diretor Marcelo Masagão. A película teve como proposta pretenciosa uma releitura do livro “A Era dos Extremos” do historiador Inglês Eric Robsbown, para quem ainda não leu o livro trata-se de uma análise histórico-marxista do séc XX. Um século de consolidação de um sistema, firmamento, ascênsão e declinios de potências. Partindo deste ponto, o diretor tentou captar o “fato histórico” pelas particularidades daqueles que presenciaram este momento.
A idéia a primeira impressão é complexa, mas a maneira e a técnica com que o diretor discorreu sobre o tema já em vista da obra sedimentada, é menos complicada do que se imagina.
“O historiado é o Rei, Freud é a Rainha”. Estas primeiras palavras de abertura do filme demonstram sua verdadeira intenção: analisar a história de mãos atadas a psicologia, como isto?
O tratamento da narrativa histórica e da natureza humana discorrem sobre imagens fragmentadas de momentos ocasionais e que se consolidam, criando uma base psicológica pelo olhar de quem o assiste. Capturar histórias de vidas peculiares, em cima de grandes acontecimentos, sob filmagens soltas e ainda trilhar nestas mesmas vidas uma música clássica excepcional que não torna apenas as imagens vistas, mas sentidas e orgânicas, o que ajudou a modelar a montagem da obra; algo tão simples e que diz tanto, conquistou não só a mim quanto ao publico e a crítica do festival de gramado de 1999.
Essa demasiada psicologia visual me contaminou e diluiu o resto de crença humana, na agora maior, desesperança humana. Não sei qual seria o real efeito dessa obra, nessa hora me lembro de Nietzsche “não existem fatos, existem interpretações”. Como a interpretação é mutável ao longo do tempo, por enquanto ela se consolida pessimista.
Capitalismo, Socialismo, Utopia, Guerras, Contradição, Liberdade, Violência, parece que todas estas manifestações se traduziram nesta nossa “Era dos Extremos”.
“Morrer pela Pátria, pela idéia! Não, isso é fugir da verdade. Ninguém pode imaginar sua própria morte. Matar é o importante. Esta é a fronteira a ser cruzada. Sim, esse é um ato concreto de verdade”
Século XXI. O que mudou?
O fato histórico ou a Interpretação do fato, não se restringe apenas a uma virada de século, de ano, dia ou hora e sim pelo decorrer da intervenção humana em sua atividade dentro de seu espaço, “hipótese da pluralidade das durações”, segundo a reflexão notável do historiador francês Fernand Braudel.
Ou seja, em nosso presente onde muito se transformou, nada mudou.
Buenas Noches, mal educados!
Julho, 2008
La expectativa era tremenda. Quedábamos ansiosos por sus clases. No me recuerdo de que clase él profesor ha ido hablar. Todavia ha ido enseñarnos, ha ido contagiarnos, ha ido siempre nos sorprender.
Era siempre así que permaneciamos cuando el Profesor Fernando Teixeira entraba en clase. Mios amigos André, Elisa, Laura, Antonio y yo estuvimos estasiados en todas las explicaciones de las escuelas literárias. Nadie podria nos entretener encuanto ello hablava.
Me recuerdo su primer vez en clases. Con aquello vaquero hasta el cuello. Era una broma en vida.
Su postura tan intelectual y su erudición dejaban todos los alumnos callados, pues no teniamos conocimientos suficientes para contestar o debatir. Hablava con facinación acerca de los “Mares nunca d’ante navegados” de Camões, las “putarias” de Gregório de Mattos, el “bucolismo” de los Árcades hasta su mayor encanto por la poesía del “mal do século” de Alvarez de Azevedo y del Romantismo.
Afortunadamente tambiém me recuerdo de su última vez que ha estado entre nosotros. Clase de “A moreninha” de Joaquim Manuel de Macedo. Como de costumbre ensayaba sus ironias y destilaban sus presentaciones cénicas.
Estupendo!
Desafortunadamente, hace poco, he descobierto que mio mayor profesor de literatura ha falecido.
Acá rendo homenaje a ello, agradezco por encantar una parte de mi vida y quizás de mis amigos también.
“Entederam isso? Entenderam nada vocês tão me enganando…”
Terra Estrangeira
Julho, 2008
Semana passada revi o filme Terra Estrangeira de Walter Salles e Daniela Thomaz e efetivamente constatei que se trata de um filme de extrema qualidade artistica por diversos fatores: narrativa, roteiro e fotografia.
A história é ambientada na era do (des)governo Collor quando o Brasil deixa de ser uma país de imigração e passa a ser um país de emigração devido a crise do plano econômico no qual o país foi condenado.
O contexto ajuda a retratar a vida de Paco: um jovem estudante paulista que tem a vida revirada a partir da súbita morte de sua mãe. Perdido decide deixar o país e para isso aceita levar um objeto contrabandeado para Lisboa. Mas sua chegada a Portugal também vem acompanhada por turbúlências e o que parecia fácil torna-se o inverso.
A narrativa é ótima quando foca na retratação da realidade, pois nos remetem ao lugar ao qual os latinos, africanos e asiáticos se deparam sem maquiagem à sua recepção.
O roteiro é interessante pela sua versatilidade. Não era planejado encontrar uma outra cidade dentro de Lisboa, digamos, uma cidade caracterizada pelo toque emigrante, sobretudo oriundos das antigas colonias portuguesas. Essa nova lisboa surge como pano de fundo da trama, consolidando até mesmo o caráter dos personagens.
Por exemplo o único amigo de Paco em Lisboa é um Angolano. Essa identidade subdesenvolvida revelada na trama, envolve os bairros lisboetas onde brasileiros, cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos se configuram como numa volta dos filhos bastardos à terra mãe, ou seja, uma inversão emigrante. Países que abrigaram milhares de portugueses, hoje, concentram-se em seu país milhares de seus colonizados.
A bela fotografia em preto e branco serve como difusora da dramaticidade dessa sufocante história. Os planos sobre as paisagens são lindas obras de arte. Tanto pela experiência do diretor de fotografia quanto pela escolha em pb que já é em minha opinião uma obra de arte.
Terra estrangeira se confima importante e necessário para entender um pouco e de uma forma peculiar os problemas dos nosso compatriotas espalhados pelo mundo, sua recepção nos países que ficam, suas saudades, suas ilusões e seus sonhos.
