Le Scaphandre et le Papillon
Março, 2009
Assim que acordamos abrimos nossos olhos, mesmo sem nos movimentarmos ou falarmos, olhamos em várias direções, refletimos, pensamos, raciocinamos, nos colocamos como protagonistas de mais um dia de nossas vidas. Em silêncio repetimos ordens a nós mesmos sobre o que faremos durante o dia, a tarde e a noite, até mesmo repensamos o plano para o mês e os futuros projetos anuais. Neste pequeno exercício matinal sobre nossa existência receamos sobre nossas frustrações, nossos problemas, nossos amores passados, presentes ou futuros e de nossa saudade; a partir destas reflexões montamos a trilha sonora de nossas vidas entre sonhos e pesadelos.
Nem todos nós nos atamos ao singelo, a simplicidade da vida ou ao quanto somos felizes diariamente com os amigos que temos, com os problemas que temos e não temos ou com a maneira peculiar com que vivemos esta vida. Para muitos o peso de nossa vida muitas vezes e insuportável.
Não posso falar pelos outros, sou apenas parte do todo, mas assistindo ao filme O Escafandro e a Borboleta, baseado no livro de mesmo nome, percebo o quanto o peso da minha vida é comparável ao de uma pluma em contrapartida ao do protagonista do filme. Reflito no quanto problematizo meu corpo, minha realidade e meu futuro em cima de acontecimentos levianos e singelos, nada comparável ao peso e a dor de Jean-Dominique Bauby.
Aprisionado em seu próprio corpo, como numa espécie de Escafandro, Jean-Do em seu livro tentou representar o mundo pelo qual vivia em silêncio, para isso teve que aprender a se comunicar pelo piscar das pálpebras de um olho, única maneira que lhe restou de se comunicar com o mundo, após ter sofrido um derrame cerebral avassalador. Desta maneira conseguiu relatar o peso de seu escafandro para o mundo exterior, comentar seu drama e descrever seu peculiar mundo: “Através da cortina em fiapos, um tênue brilho anuncia o raiar do dia; Meus calcanhares doem, minha cabeça pesa uma tonelada; Todo o meu corpo está encerrado em uma espécie de escafandro. Minha tarefa agora e escrever as inertes anotações de viagem de um naufrago nas praias da solidão”.
A partir do comovente relato do livro O Escafandro e a Borboleta, o diretor Julian Schnabel se propôs a realizar uma obra prima. Sob o ponto de vista do próprio Jean-Do a obra inspira vitalidade e sofrimento, angústia e prazer, beleza e tristeza a quem o assiste. O filme consegue enxergar e mostrar o mundo de Jean-Do sem ser piegas, adota em sua narrativa lirismo e abstração em sua imaginação.
“Além do meu olho duas coisas ainda não estavam paralisadas: a minha imaginação e a minha memória. Eram as duas únicas maneiras de escapar de meu escafandro. Eu podia imaginar qualquer coisa, qualquer um e qualquer lugar. Flutuar nas ondas da Martinica, estar com mulher que amo… Posso imaginar o que quiser; Dar asas as minhas fantasias de menino, minhas ambições de adulto…”
Sem sombra de dúvidas o melhor filme lançado em 2008 no Brasil, somente o assisti neste início de ano, fico feliz de tê-lo visto, pois agora passo a olhar a vida de uma outra perspectiva, por uma nova peculiaridade, sem discursos motivadores prontos e clichês ou de autopiedade, mas com mais percepção aos pequenos detalhes da vida, as mínimas escolhas as quais o acaso me avalia.
Esta bela passagem resume basicamente a essência do que quero dizer: “Hoje, sinto que minha vida e uma série de frustrações; Mulheres que não fui capaz de amar; Oportunidades que eu não soube avaliar; Momentos de felicidade que deixei escapar; Uma corrida cujo resultado… eu conhecia de antemão, mas falhei em escolher o vencedor; Tenho sido cego e surdo, ou o duro golpe me faz descobrir minha verdadeira natureza?”
Ótima dica para a vida.
Que linda resenha esta tua! Quero ver este filme, ou melhor, ler este livro.
Me parece que sua sensibilidade está aflorando-se, que bem!
Nada como histórias de vida comovedoras para nos dar un sopro de vida e quitarnos el polvo de la rotina para mirar la vida con otros ojos.
Y el cuerpo es sólo una de las herramientas que dispone nuestra alma, creo que con esta experiencia que relata el libro, es una lección de vida que le quiere enseñar su verdadera naturaleza.
Besito y hasta pronto